Ei, acho que você não sabe o quanto eu gosto de você. Ou gostava, não sei - ainda estou na fase do tanto faz. De qualquer forma, você querendo ou não saber, ainda assim eu vou te contar. Porque isso não é uma coisa que a acontece todo dia.
A vida não é uma brincadeira. E você tem que aprender isso da pior maneira possível. Você brinca até não poder mais, até a realidade te dar um tapa tão forte que fica difícil ignorar. Ai você olha pros lados e vê toda aquela bola de neve que você ignorou por tanto tempo, aquela que você brincou tanto e agora ta te perseguindo, tentando te esmagar.
É uma tristeza olhar pros lados e ver a realidade. Não é uma coisa que eu gosto, você sabe. Todo mundo sabe. Mas é necessário, não é? É necessário ver que a felicidade não chega pra todo mundo. É necessário ver que tem gente por ai morrendo enquanto você não sabe se gosta o seu dinheiro com um celular novo ou com uma roupa nova. É necessário ver o egoísmo. É necessário ver que realizar um sonho é diferente de ser completamente feliz, porque nada nesse mundo é completo. A gente sempre procura algo, sabe, pra se completar. Uns procuram dinheiro, carreira, status social, e outros… procuram outras pessoas incompletas.
E eu achei que você era tão incompleto quanto eu.
Dizem que nós temos que encontrar pessoas cujo os demônios brinquem amigavelmente com os nossos, não é?
Eu achei você, todo cheio de defeitos. Sabe? Daquele jeito que a gente ri por que sabe que não dá pra consertar. E nem quer. E aqueles demônios pareciam que iam se dar bem com os meus.
Por que você me parecia incompleto desse jeito, e tentar completar por si só não é certo. Eu queria que nossos incompletos se completassem, que nossos demônios se dessem bem.
Que nossos defeitos fossem o mais defeituosos possíveis, juntos.
Mas como eu disse, o incompleto nem sempre tem um complemento. Talvez meu incompleto não complete o seu, talvez meus demônios não quisessem brincar com os seus. Talvez seus defeitos não sejam tão defeituosos quanto os meus.
Eu aprendi também que é necessário entender que a vida não é sobre esquecer, e sim sobre virar a página do livro estranho e de linhas tortas e seguir em frente. Escrever uma nova página, tentar não morrer sufocado por uma bola de neve cheia de realidades filhas da puta. E tentar sobreviver com a marca dos dedos da realidade na sua cara.
Eu virei sua página. Obrigada pelas palavras mal escritas, pelos borrões de lágrimas e pelas linhas tortas.
E ei, é assim que se segue a vida, não é?